A guerra deixa marcas que não se vêem. Para os refugiados ucranianos — que fugiram de bombardeamentos, perderam familiares, deixaram para trás as suas casas, o seu trabalho, as suas raízes — o trauma psicológico é tão real como as feridas físicas. Em Portugal, a resposta à saúde mental dos refugiados tem crescido desde 2022, com serviços públicos e organizações especializadas a criar programas adaptados às necessidades específicas desta comunidade.

O impacto psicológico da guerra e do exílio

Compreender o que os refugiados ucranianos vivenciaram é o primeiro passo para os apoiar adequadamente.

Tipos de trauma

Os refugiados ucranianos podem ter sido expostos a múltiplos tipos de trauma: violência directa (bombardeamentos, combates, ameaças à vida), perda de entes queridos, separação forçada de familiares (muitos homens ficaram na Ucrânia, mulheres e crianças partiram), destruição da casa e dos bens, incerteza sobre o futuro e perda de identidade e pertença. A cumulação destes factores cria formas complexas de sofrimento que exigem respostas especializadas.

Perturbação de stress pós-traumático (PTSD)

O PTSD é frequente em populações que sofreram traumas severos. Manifesta-se através de flashbacks (reviver intensamente o trauma), pesadelos, evitamento de situações associadas ao trauma, entorpecimento emocional, hipervigilância e dificuldades de concentração. Sem tratamento adequado, o PTSD pode tornar-se crónico e incapacitante.

Luto não elaborado

Muitos refugiados ucranianos vivem um luto não elaborado — pela morte de familiares, pela perda de amigos, pela destruição da casa, pelo fim de uma vida que conheciam. A impossibilidade de fazer um luto “normal” (sem rituais, longe dos lugares significativos, em contexto de incerteza) complica o processo de recuperação.

Sessão de apoio psicológico em grupo para refugiados ucranianos em Portugal

Serviços de saúde mental do SNS

Os refugiados ucranianos em Portugal com protecção temporária têm acesso integral ao SNS, incluindo os serviços de saúde mental.

Como aceder ao SNS

O caminho mais directo é através do médico de família no centro de saúde da área de residência. O médico de família pode referenciar para consultas de psicologia ou psiquiatria no serviço de saúde mental da área. Em situações de crise aguda, os serviços de urgência dos hospitais têm sempre psiquiatria de urgência.

Limitações do sistema público

O SNS em Portugal tem limitações conhecidas na área da saúde mental: listas de espera longas para consultas de psicologia e psiquiatria, e escassez de profissionais que falem ucraniano. Para refugiados com necessidade urgente de apoio especializado, as organizações não governamentais têm frequentemente respostas mais rápidas.

Linha SNS 24

A linha SNS 24 (808 24 24 24) está disponível 24 horas e pode orientar sobre como aceder a cuidados de saúde mental urgentes. Em situação de crise imediata, com risco para a vida, ligue sempre para o 112.

Organizações especializadas em apoio a refugiados

Várias organizações em Portugal têm programas específicos de saúde mental para refugiados ucranianos.

ACNUR Portugal

O escritório do ACNUR em Lisboa tem programas de saúde mental para refugiados e pode referenciar para psicólogos especializados em trauma de guerra. O ACNUR trabalha em parceria com profissionais de saúde mental voluntários e organizações parceiras.

Cáritas Portuguesa

A Cáritas tem centros de atendimento a migrantes e refugiados com serviços de psicologia. Algumas delegações têm psicólogos com formação específica em trauma e em trabalho com populações migrantes.

Associações da comunidade ucraniana

Algumas associações criadas pela própria comunidade ucraniana em Portugal têm desenvolvido grupos de apoio mútuo — não necessariamente conduzidos por profissionais, mas com grande valor pelo sentido de pertença e partilha que proporcionam. Estes grupos funcionam em ucraniano e são especialmente acessíveis a quem tem dificuldades com a língua portuguesa.

Apoio psicológico online em ucraniano

O apoio psicológico online tem-se revelado particularmente valioso para os refugiados ucranianos por várias razões: não exige deslocação, está disponível independentemente da localização geográfica, e permite aceder a psicólogos que falem ucraniano em qualquer parte do mundo.

Plataformas disponíveis

Existem plataformas de telepsicologia baseadas na Ucrânia que continuam a operar para a diáspora. O Ministério da Saúde ucraniano tem um portal de saúde mental (online.me.gov.ua) com recursos e referenciações para psicólogos online. A UNICEF tem um programa de saúde mental digital para jovens ucranianos.

Grupos de apoio online

Os grupos de apoio online em ucraniano — no Telegram, Viber e outras plataformas — têm desempenhado um papel importante na saúde mental da diáspora, criando espaços de partilha e solidariedade entre pessoas com experiências semelhantes.

Apoio às crianças ucranianas

As crianças são particularmente vulneráveis ao trauma de guerra. As suas formas de expressão do sofrimento são diferentes das dos adultos e frequentemente mal interpretadas.

Psicóloga a trabalhar com crianças ucranianas num centro de acolhimento em Portugal

Sinais a observar nas crianças

Em crianças que vivenciaram trauma de guerra, os sinais de sofrimento psicológico podem incluir: regressão comportamental (voltar a comportamentos de fases anteriores do desenvolvimento), pesadelos frequentes, recusa escolar ou dificuldades de aprendizagem súbitas, agressividade ou retraimento, choro excessivo ou, ao contrário, aparente indiferença emocional.

Programas escolares de apoio

Muitas escolas portuguesas com crianças ucranianas têm psicólogos escolares que podem fazer um acompanhamento de primeira linha. A UNICEF Portugal e a Save the Children têm também programas específicos de apoio psicossocial para crianças refugiadas, em articulação com as escolas.

A importância da rotina

Para as crianças que vivenciaram trauma, a rotina e a estabilidade são instrumentos terapêuticos fundamentais. A escola, os horários fixos, as actividades extracurriculares e os laços de amizade criados em Portugal contribuem significativamente para a recuperação.

Como apoiar um refugiado ucraniano sem ser terapeuta

Muitos portugueses que acolheram ou conhecem refugiados ucranianos querem apoiar mas não sabem como. Aqui estão alguns princípios práticos.

O que ajuda

Presença regular e consistente — não é preciso falar muito, basta estar. Ouvir sem julgamento quando a pessoa quer partilhar, mas não forçar a partilha de experiências traumáticas. Ajudar com tarefas concretas — burocracias, consultas, compras — que reduzem o stress do quotidiano. Incluir a pessoa em actividades sociais normais, sem exigir que deixe o sofrimento de fora.

O que evitar

Frases como “tens de ser forte”, “já passou”, “há gente em situações piores” ou “pelo menos estás seguro” — por bem-intencionadas que sejam — podem invalidar o sofrimento da pessoa. Evite também fazer perguntas insistentes sobre os detalhes da experiência de guerra.

Quando procurar ajuda profissional

Se notar sinais de crise — pensamentos suicidas expressados verbalmente ou por escrito, incapacidade total de funcionar no dia-a-dia, isolamento extremo e recusa de qualquer contacto — incentive activamente o acesso a apoio profissional. Em situação de emergência, ligue para o 112.

A solidariedade tem muitas formas. Se quiser saber como pode ajudar de outras maneiras, consulte o nosso guia sobre como ajudar a Ucrânia a partir de Portugal.