Numa tarde cinzenta de Lisboa, o ambiente caloroso do nosso escritório na sede do HelpToUkraine.pt contrastava com as histórias de resiliência e adversidade que o nosso convidado partilhava. Tivemos o privilégio de conversar com o Dr. Miguel Santos, um médico de clínica geral e urgência com uma década de experiência no Serviço Nacional de Saúde (SNS) português, e que tem dedicado uma parte significativa do seu tempo a missões humanitárias. O Dr. Santos, com um percurso notável que inclui colaborações com Médicos do Mundo e a Cruz Vermelha Portuguesa, tem estado na linha da frente do apoio médico aos refugiados ucranianos, tanto nos pontos de fronteira como aqui em Portugal. A sua dedicação e a sua visão sobre os desafios e as necessidades prementes da população ucraniana, afetada pela guerra, são uma fonte inestimável de conhecimento e inspiração. A entrevista foi conduzida pela nossa jornalista, Sofia Mendes.
Dr. Miguel Santos
Médico de clínica geral e urgência (SNS) — voluntário em missões médicas humanitárias com Médicos do Mundo e Cruz Vermelha Portuguesa
A Chamada para a Ação: O Início da Missão
A invasão em larga escala da Ucrânia em fevereiro de 2022 desencadeou uma das maiores crises humanitárias da Europa moderna, forçando milhões de pessoas a abandonar as suas casas em busca de segurança. A resposta global foi imediata, e Portugal não foi exceção, com uma onda de solidariedade a manifestar-se em diversas frentes — consulte o nosso guia completo sobre como ajudar a Ucrânia para conhecer todas as formas de contribuir. O Dr. Miguel Santos sentiu o apelo para agir logo nos primeiros dias do conflito, impulsionado pela urgência e pela dimensão do sofrimento humano. A sua experiência anterior em contextos de emergência, embora diferentes, preparou-o para a complexidade e a imprevisibilidade inerentes a estas missões. A decisão de partir para a fronteira foi um passo natural para quem acredita que a medicina vai muito além das quatro paredes de um consultório.
Dr. Miguel, o que o levou a integrar uma missão humanitária de apoio à Ucrânia e qual foi a sua primeira experiência no terreno?
A decisão de me juntar a uma missão de apoio à Ucrânia foi quase instintiva. Lembro-me vividamente dos primeiros dias da invasão, acompanhando as notícias com um misto de incredulidade e profunda tristeza. A dimensão do êxodo, as imagens de famílias separadas, de cidades bombardeadas… tudo isso me tocou profundamente. Como médico, senti que tinha a responsabilidade, e a capacidade, de fazer algo mais do que apenas observar. Já tinha alguma experiência em contextos de emergência, nomeadamente em missões de apoio a populações afetadas por desastres naturais, mas nada que se comparasse à complexidade de uma crise de guerra em solo europeu. Contactei a Médicos do Mundo, com quem já tinha colaborado pontualmente, e manifestei a minha disponibilidade.
A minha primeira experiência no terreno foi na Polónia, perto da fronteira com a Ucrânia, em março de 2022. Cheguei a Przemysl, uma cidade que se tornou um dos principais pontos de passagem para os refugiados. O cenário era avassalador. Milhares de pessoas, na sua maioria mulheres, crianças e idosos, chegavam exaustas, traumatizadas, com o mínimo de bens. A organização era impressionante, com voluntários de todo o mundo a coordenarem-se para oferecer apoio. A minha função inicial era principalmente a triagem médica em centros de acolhimento improvisados, muitas vezes em pavilhões desportivos ou antigas superfícies comerciais. Viemos a constatar que as necessidades iam desde o tratamento de ferimentos ligeiros e doenças crónicas descompensadas — como a hipertensão ou a diabetes, para as quais muitos tinham interrompido a medicação — até ao apoio psicológico urgente. A imagem que mais me marcou foi a de uma criança de uns cinco ou seis anos, que não falava, apenas desenhava tanques e explosões. A sua mãe disse-me que, desde que tinham fugido de Mariupol, ela tinha deixado de comunicar. Ali percebi a profundidade das feridas que não são visíveis. Foi um choque, mas também uma confirmação de que estava no sítio certo, a fazer o que era preciso.
Quais foram os maiores desafios logísticos e emocionais que enfrentou nessa primeira fase da missão, e como a sua equipa os superou?
Os desafios logísticos eram imensos. Embora as organizações humanitárias estivessem a fazer um trabalho extraordinário, a escala da crise significava que a procura superava sempre a oferta. Tínhamos de ser incrivelmente adaptáveis. Por exemplo, a disponibilidade de medicamentos específicos para doenças crónicas era muitas vezes intermitente. Tínhamos de gerir os recursos com grande cuidado, priorizando os casos mais urgentes e procurando alternativas quando os medicamentos habituais não estavam disponíveis. A comunicação também era um desafio, apesar da presença de muitos tradutores voluntários. As barreiras linguísticas e culturais exigiam paciência e criatividade para garantir que compreendíamos as necessidades dos pacientes e que eles compreendiam as nossas instruções.
Do ponto de vista emocional, o impacto era constante e profundo. Ver o sofrimento de tantas pessoas, especialmente das crianças, era desgastante. A impotência perante certas situações, como a de não poder oferecer um lar ou uma solução definitiva para o trauma de uma família, era algo que nos pesava. A nossa equipa, composta por médicos, enfermeiros, psicólogos e logísticos de diferentes nacionalidades, criou uma rede de apoio informal muito forte. Partilhávamos as nossas experiências no final do dia, desabafávamos, e isso era essencial para processarmos o que tínhamos vivido. Tínhamos reuniões diárias para discutir os casos mais complexos e para nos certificarmos de que ninguém estava a ser esmagado pela carga emocional. A resiliência da equipa era notável, e o sentimento de propósito comum ajudava-nos a seguir em frente. Lembro-me de um colega enfermeiro que dizia: «Não podemos curar a guerra, mas podemos curar as suas feridas, uma de cada vez.» Essa perspetiva era um pilar fundamental para mantermos a nossa sanidade e eficácia.
No Terreno: Desafios e Realidades da Ajuda Médica
A assistência médica em zonas de conflito ou em regiões de acolhimento de refugiados é intrinsecamente complexa. Não se trata apenas de diagnosticar e tratar doenças, mas de fazê-lo num contexto de escassez de recursos, trauma generalizado e incerteza constante. O Dr. Miguel Santos e a sua equipa enfrentaram uma panóplia de condições médicas, desde as mais comuns às mais específicas de uma população em deslocação forçada. A capacidade de improvisação, o conhecimento das patologias mais prevalentes e uma abordagem centrada na pessoa foram cruciais para o sucesso das suas intervenções.
Quais foram as patologias mais comuns que observou entre os refugiados na fronteira e, posteriormente, nos centros de acolhimento em Portugal? Houve alguma particularidade?
Nos primeiros meses, na fronteira, as patologias eram muito variadas, mas com algumas tendências claras. Grande parte dos casos estava relacionada com o stress da viagem e as condições precárias. Observámos muitas infeções respiratórias agudas — gripes, constipações, bronquites —, especialmente entre as crianças e os idosos, devido à exposição ao frio e ao cansaço extremo. Problemas gastrointestinais, como diarreias, também eram frequentes, muitas vezes associados à má alimentação e à falta de saneamento básico durante a fuga.
Outra categoria significativa eram as doenças crónicas descompensadas. Muitos refugiados tinham deixado as suas casas sem medicação ou com reservas insuficientes. Hipertensão arterial, diabetes mellitus, doenças cardíacas e problemas de tiroide eram comuns, e a interrupção abrupta do tratamento podia levar a crises agudas. Lembro-me de uma senhora idosa que chegou com uma crise hipertensiva grave, pois não tomava a sua medicação há mais de uma semana.
Em Portugal, nos centros de acolhimento e nas consultas que realizámos, a situação mudou um pouco, mas os traumas persistiam. Embora as condições de vida fossem melhores, o stress pós-traumático e os problemas de saúde mental tornaram-se mais evidentes. Ansiedade, depressão, insónias, e em algumas crianças, regressões comportamentais, eram muito frequentes. As queixas somáticas, ou seja, dores físicas sem uma causa orgânica aparente, mas ligadas ao stress, também eram comuns. Além disso, começámos a detetar a necessidade de cuidados de saúde primários mais estruturados, como vacinação em atraso, rastreios ginecológicos e dentários, que tinham sido completamente negligenciados durante o conflito. A particularidade mais marcante foi, sem dúvida, a presença constante do trauma psicológico, que permeava quase todas as consultas, mesmo quando a queixa principal era física.
Poderia partilhar um exemplo de uma situação particularmente desafiadora que exigiu uma abordagem criativa ou uma intervenção multidisciplinar?
Sim, houve vários, mas um caso em particular vem-me à mente e ilustra bem a necessidade de uma abordagem criativa e multidisciplinar. Tratava-se de uma família, uma mãe e os seus dois filhos pequenos, que chegaram a Portugal vindos de uma das cidades mais fustigadas. A mãe tinha ferimentos leves de estilhaços, já tratados na Ucrânia, mas o filho mais novo, de três anos, apresentava um quadro de mutismo seletivo e recusa alimentar, o que nos preocupava seriamente. Ele não falava, não interagia, e estava a perder peso.
A abordagem médica tradicional não estava a ser suficiente. Foi aqui que a colaboração com a equipa de psicólogos e assistentes sociais se tornou vital. Enquanto eu monitorizava a sua condição física e tentava gerir a recusa alimentar com suplementos nutricionais, a psicóloga começou a trabalhar com a mãe e o filho. Percebemos que o menino tinha presenciado eventos traumáticos e que a sua recusa em falar era uma forma de autoproteção. A equipa de assistentes sociais, por sua vez, procurou criar um ambiente o mais estável e seguro possível para a família, ajudando-os na integração e no acesso a recursos básicos.
A abordagem criativa veio da nossa equipa de voluntários. Uma das voluntárias, que tinha experiência em arteterapia, começou a passar tempo com o menino, sem pressão para que ele falasse. Apenas brincavam com plasticina, desenhavam, e ela lia histórias em ucraniano. Demorou semanas, mas gradualmente, o menino começou a interagir através dos desenhos. Depois, começou a emitir sons, e finalmente, balbuciar algumas palavras. A sua alimentação também melhorou. Foi um processo lento, mas que demonstrou que, por vezes, a cura vai muito além dos medicamentos e exige uma compreensão profunda do contexto e do trauma de cada indivíduo. A intervenção multidisciplinar, com a articulação entre medicina, psicologia e apoio social, foi absolutamente crucial para a recuperação desta criança.
Nota editorial: A saúde mental é um pilar fundamental no apoio aos refugiados. O trauma da guerra e da deslocação pode manifestar-se de diversas formas, exigindo uma abordagem sensível e especializada. É crucial integrar o apoio psicológico e psiquiátrico desde o primeiro contacto.
Para Além da Fronteira: O Apoio aos Refugiados em Portugal
Com a chegada de milhares de refugiados ucranianos a Portugal, a necessidade de cuidados de saúde adaptados e de um processo de integração eficaz tornou-se uma prioridade. O Dr. Miguel Santos, regressado das missões de fronteira, continuou o seu trabalho voluntário em Portugal, agora focado em garantir que estas pessoas tivessem acesso aos cuidados de que necessitavam para reconstruir as suas vidas. A transição de uma situação de emergência aguda para uma de apoio a longo prazo trouxe consigo um novo conjunto de desafios, exigindo coordenação com as autoridades de saúde portuguesas e uma compreensão profunda das barreiras que os refugiados enfrentam.
Após as suas missões na fronteira, continuou a prestar apoio em Portugal. Como se articulou o trabalho de voluntariado médico com o Serviço Nacional de Saúde (SNS) para garantir o acesso a cuidados de saúde aos refugiados ucranianos?
Sim, após as missões iniciais na fronteira, o meu compromisso continuou aqui em Portugal, nomeadamente através da Cruz Vermelha Portuguesa e de outras iniciativas de base comunitária. A articulação com o SNS foi e continua a ser um aspeto crucial. Portugal, ao contrário de outros países, tem um sistema de saúde universal, o que, em teoria, significa que todos os residentes, incluindo os refugiados com estatuto de proteção temporária, têm direito a cuidados de saúde. No entanto, a realidade é que existem barreiras.
A primeira barreira é a do acesso à informação. Muitos refugiados não sabem como funciona o SNS, como marcar uma consulta, ou quais são os seus direitos. As organizações de voluntariado têm desempenhado um papel fundamental na ponte, informando e acompanhando as pessoas. Nós, como voluntários, muitas vezes fazemos a primeira triagem, as primeiras consultas, e depois orientamos para os centros de saúde ou hospitais quando necessário. A Cruz Vermelha, por exemplo, criou postos de atendimento e equipas móveis que se deslocam a centros de acolhimento para fazer estas triagens e encaminhamentos.
Outra barreira é a da língua. Embora muitos médicos e enfermeiros portugueses se esforcem, a comunicação pode ser difícil. Aqui, os tradutores culturais, muitos deles ucranianos voluntários, são indispensáveis. Eles não só traduzem as palavras, mas também ajudam a interpretar os contextos culturais e as expectativas. Temos trabalhado em conjunto com o SNS para desenvolver materiais informativos em ucraniano e para sensibilizar os profissionais de saúde para as necessidades específicas desta população, incluindo o impacto do trauma. O objetivo é complementar o SNS, preenchendo lacunas e facilitando o acesso, sem duplicar esforços. É um trabalho de coordenação contínua e de grande importância.
Que tipo de necessidades de saúde a longo prazo identificou nos refugiados ucranianos em Portugal e como se pode garantir uma integração saudável no sistema de saúde português?
As necessidades de saúde a longo prazo são multifacetadas e exigem uma abordagem abrangente para uma integração saudável. Em primeiro lugar, e como já referi, a saúde mental é uma preocupação primordial. O trauma da guerra, a perda de entes queridos, a separação familiar e a incerteza do futuro têm um impacto profundo. É fundamental que se garantam serviços de saúde mental acessíveis e culturalmente sensíveis, incluindo apoio psicológico e psiquiátrico, tanto para adultos como para crianças. Para mais pormenores sobre o acesso ao sistema de saúde português, veja o nosso artigo dedicado à [saúde e acesso a cuidados para refugiados ucranianos em Portugal](/blog/saude-acesso-cuidados-refugiados-ucranianos-portugal-2026/).
Em segundo lugar, a gestão de doenças crónicas. Muitos refugiados precisam de acompanhamento contínuo para condições como diabetes, hipertensão, asma ou doenças cardiovasculares. É essencial que sejam integrados nos cuidados de saúde primários, que lhes seja atribuído um médico de família e que tenham acesso regular a medicação.
Em terceiro lugar, a saúde preventiva. Muitos atrasaram a vacinação, os rastreios de rotina (como o cancro da mama ou do colo do útero) e os cuidados dentários. É importante implementar programas de “catch-up” e de educação para a saúde.
Para garantir uma integração saudável, sugiro algumas medidas:
- Acelerar a atribuição de número de utente e médico de família: É o primeiro passo para o acesso pleno ao SNS.
- Disponibilizar mediadores culturais e tradutores: Em todas as unidades de saúde, para facilitar a comunicação.
- Formação contínua para profissionais de saúde: Sobre trauma, saúde mental em contextos de refúgio e especificidades culturais.
- Programas de saúde mental especializados: Com equipas multidisciplinares e abordagens adaptadas.
- Apoio à literacia em saúde: Ajudar os refugiados a compreender o sistema de saúde português e a saber como utilizá-lo.
- Redes de apoio comunitário: Fortalecer o papel das associações e voluntários na orientação e acompanhamento.
A integração não é apenas uma questão de acesso, mas de compreensão e confiança no sistema, e isso leva tempo e um esforço concertado de todas as partes.
Importante: A continuidade dos cuidados é vital. Assegurar que os refugiados ucranianos têm acesso ininterrupto a medicamentos e acompanhamento médico para as suas doenças crónicas é uma prioridade para evitar complicações graves e desnecessárias.
O Impacto Humano e o Futuro do Voluntariado
O impacto de uma missão humanitária estende-se muito além dos benefícios imediatos para os pacientes. Para os profissionais de saúde voluntários, a experiência é transformadora, moldando a sua perspetiva sobre a vida, a resiliência humana e o verdadeiro significado da medicina. O Dr. Miguel Santos partilha as suas reflexões sobre as lições aprendidas e o que o futuro pode reservar para o voluntariado em contextos de crise, sublinhando a importância da perseverança e da solidariedade contínua.
Após todas estas experiências, qual foi a lição mais importante que aprendeu sobre a resiliência humana e a importância da solidariedade?
A lição mais importante que aprendi, e que se reforça a cada dia, é a extraordinária resiliência do espírito humano. Testemunhei pessoas que perderam tudo — as suas casas, os seus bens, os seus entes queridos —, mas que, apesar de tudo, mantinham uma força interior e uma esperança quase inabaláveis. Vi mães que, mesmo exaustas e traumatizadas, encontravam a energia para sorrir aos seus filhos e para lhes dar a sensação de segurança. Vi idosos que, apesar da fragilidade física, mantinham uma dignidade e uma vontade de viver admiráveis.
Esta resiliência não é uma qualidade inata apenas de alguns; é algo que emerge da necessidade, da capacidade de adaptação e, crucialmente, do apoio que recebem. É aqui que entra a importância da solidariedade. A solidariedade não é apenas um ato de caridade; é um reconhecimento da nossa humanidade partilhada. É a certeza de que, nos momentos mais sombrios, não estamos sozinhos. Vi esta solidariedade manifestar-se em milhares de voluntários anónimos, em doações de todos os cantos do mundo, em abraços dados a estranhos. Sem essa rede de apoio, a resiliência individual seria muito mais difícil de sustentar. A solidariedade é o cimento que une as comunidades em tempos de crise e que permite que a esperança floresça mesmo em terrenos devastados. Aprendi que, mesmo o mais pequeno gesto de bondade pode ter um impacto profundo na vida de alguém.
«A resiliência dos ucranianos é uma inspiração. Eles mostram-nos que, mesmo perante a adversidade mais brutal, a esperança e a capacidade de reconstruir são inerentes ao espírito humano. O nosso papel é apenas o de lhes dar as ferramentas para o fazerem.» — Dr. Miguel Santos
Que conselho daria a outros profissionais de saúde que consideram envolver-se em missões humanitárias, e quais são os aspetos mais prementes para o futuro do apoio médico à Ucrânia?
A profissionais de saúde que consideram envolver-se em missões humanitárias, o meu conselho é: preparem-se, mas não hesitem. É uma experiência transformadora e desafiadora, mas imensamente gratificante.
- Formação: Procurem formação específica em saúde humanitária e medicina de catástrofe. Organizações como a Médicos do Mundo ou a Cruz Vermelha oferecem cursos excelentes.
- Flexibilidade e adaptabilidade: Estejam preparados para trabalhar em condições precárias, com recursos limitados e em ambientes de alta pressão. A capacidade de improvisar é crucial.
- Autocuidado: A carga emocional é pesada. É fundamental aprender a gerir o stress e a procurar apoio psicológico, se necessário. Não hesitem em pedir ajuda.
- Humildade: Vão encontrar-se com culturas diferentes e realidades muito distintas das nossas. Abordem cada situação com humildade, respeito e uma mente aberta.
- Trabalho em equipa: A colaboração é a chave. Confiem na vossa equipa e aprendam com ela.
Quanto aos aspetos mais prementes para o futuro do apoio médico à Ucrânia, vejo várias prioridades:
- Apoio contínuo à saúde mental: a longo prazo, o trauma da guerra persistirá. É preciso investir em programas robustos de saúde mental, tanto dentro da Ucrânia como para os refugiados.
- Reconstrução e reforço dos sistemas de saúde: à medida que a guerra avança, é vital apoiar a reconstrução das infraestruturas de saúde danificadas na Ucrânia.
- Cuidados de reabilitação: haverá uma grande necessidade de reabilitação física e funcional para os feridos de guerra, incluindo próteses e fisioterapia.
- Gestão de doenças crónicas e saúde preventiva: manter o foco na prevenção e no tratamento de doenças crónicas para evitar que se tornem crises agudas.
- Formação de profissionais de saúde locais: capacitar os profissionais de saúde ucranianos é fundamental para a sustentabilidade dos cuidados.
O apoio à Ucrânia não pode ser um esforço pontual; é um compromisso a longo prazo que exige persistência, inovação e solidariedade contínua da comunidade internacional.
A Sustentabilidade do Apoio e o Papel da Comunidade
A magnitude da crise humanitária na Ucrânia exige uma resposta que vá além da fase de emergência. A sustentabilidade do apoio, tanto a nível financeiro como humano, é fundamental para garantir que as necessidades a longo prazo dos afetados sejam atendidas. O Dr. Miguel Santos sublinha a importância da comunidade, não apenas dos profissionais de saúde, mas de cada cidadão, na construção de um futuro mais estável e seguro para os ucranianos.
Considerando a duração prolongada do conflito, como é que as organizações humanitárias estão a adaptar as suas estratégias para garantir um apoio sustentável, e qual é o papel da comunidade portuguesa nesse esforço?
A adaptação das estratégias é um processo contínuo e vital. Inicialmente, a resposta foi focada na emergência: comida, abrigo, cuidados médicos imediatos. Agora, o foco tem de se alargar para a sustentabilidade e a reconstrução, mesmo que a guerra ainda esteja em curso. As organizações humanitárias estão a investir cada vez mais em capacitação local, programas de reabilitação e saúde mental, apoio à subsistência, reconstrução de infraestruturas e advocacia internacional.
O papel da comunidade portuguesa é absolutamente crucial e multifacetado. Não se limita apenas a doações financeiras, embora estas sejam sempre bem-vindas e necessárias:
- Voluntariado: seja em missões no terreno ou no apoio aos refugiados em Portugal (aulas de português, acompanhamento em serviços, etc.).
- Alojamento: continuar a oferecer alojamento temporário ou de longo prazo para famílias refugiadas.
- Doações em espécie: bens essenciais, medicamentos, material escolar, sempre coordenados com as organizações para garantir que chegam ao destino certo.
- Sensibilização: manter a atenção pública sobre a situação na Ucrânia e combater a fadiga da compaixão.
- Integração social: ajudar os refugiados a sentirem-se parte da nossa sociedade.
Cada pequena ação contribui para um esforço coletivo que é a única forma de garantir um apoio sustentável e eficaz. A resiliência dos ucranianos é imensa, mas a solidariedade internacional é o seu maior pilar.
Quais são os recursos mais urgentes ou as áreas onde o apoio é mais necessário neste momento, tanto para as pessoas na Ucrânia como para os refugiados em Portugal?
As necessidades continuam a ser vastas e, em algumas áreas, são mais urgentes do que nunca.
Para as pessoas na Ucrânia:
- Material médico e farmacêutico: essenciais para hospitais em zonas de conflito ou recém-libertadas, desde material de penso e cirurgia a medicamentos para doenças crónicas e vacinas.
- Geradores e equipamento de aquecimento: a infraestrutura energética está sob ataque, e o inverno é rigoroso.
- Alimentos e água potável: a segurança alimentar continua a ser um desafio em muitas regiões.
- Apoio psicológico e psiquiátrico: a necessidade é crescente, com o prolongar do trauma.
Para os refugiados em Portugal:
- Alojamento estável e digno: a estabilidade habitacional é crucial para a integração.
- Apoio à integração no mercado de trabalho: ajuda na procura de emprego e reconhecimento de qualificações.
- Apoio na aprendizagem da língua portuguesa: cursos gratuitos e acessíveis são fundamentais.
- Apoio escolar para crianças e jovens: incluindo apoio psicopedagógico.
- Apoio jurídico e administrativo: ajuda com a burocracia e o acesso a direitos.
Em suma, a transição é de uma resposta de emergência para uma de estabilização e reconstrução de vidas, o que exige um compromisso a longo prazo em diversas frentes.
Recursos e formas de apoio
| Tipo de apoio | Descrição | Organizações a contactar |
|---|---|---|
| Doações financeiras | Permitem às organizações adquirir os bens mais necessários e adaptar a ajuda às prioridades. | Médicos do Mundo, Cruz Vermelha Portuguesa, ACNUR, Caritas |
| Voluntariado (em Portugal) | Aulas de português, acompanhamento médico/social, apoio logístico, tradução. | Associações locais de apoio a refugiados, centros de acolhimento |
| Alojamento | Oferecer um quarto, apartamento ou casa para famílias refugiadas. | Plataformas de alojamento solidário, autarquias |
| Doação de bens | Medicamentos, material de higiene, roupa em bom estado, material escolar, geradores. Contactar sempre primeiro a organização. | Cruz Vermelha, ONG especializadas, centros de recolha autorizados |
| Apoio psicológico | Profissionais de saúde mental disponíveis para consultas gratuitas ou a baixo custo. | Ordens profissionais, associações de psicólogos e psiquiatras |
Se representa uma organização e quer propor uma parceria editorial, pode contactar a nossa redação. As empresas interessadas em ir mais além podem também consultar o nosso guia para empresas que querem empregar refugiados ucranianos em Portugal.
FAQ: Perguntas Frequentes sobre o Apoio Médico e Humanitário
Quais são os principais desafios de saúde enfrentados pelos refugiados ucranianos em Portugal?
Os principais desafios incluem a gestão de doenças crónicas descompensadas devido à interrupção de medicação, problemas de saúde mental como ansiedade, depressão e stress pós-traumático, e a necessidade de acesso a cuidados de saúde primários e preventivos (vacinação, rastreios). A barreira linguística e a falta de conhecimento sobre o funcionamento do SNS também são obstáculos significativos.
Como posso voluntariar-me como profissional de saúde para ajudar os refugiados ucranianos em Portugal ou no estrangeiro?
Pode contactar organizações como a Médicos do Mundo, a Cruz Vermelha Portuguesa, a Caritas, ou outras ONG com missões humanitárias. Geralmente, estas organizações têm programas de voluntariado e exigem formação específica em saúde humanitária ou experiência em emergências. Para o voluntariado em Portugal, procure as associações locais de apoio a refugiados ou os centros de acolhimento.
Quais são os cuidados de saúde mental mais urgentes para os refugiados de guerra?
Os cuidados mais urgentes incluem a identificação precoce de sintomas de trauma e stress agudo, o acesso a apoio psicológico individual e em grupo, a prevenção do desenvolvimento de perturbações de stress pós-traumático (PTSD) e depressão, e o apoio a crianças e adolescentes que viveram eventos traumáticos.
É seguro enviar medicamentos diretamente para a Ucrânia?
Não é aconselhável enviar medicamentos diretamente sem coordenação com organizações humanitárias estabelecidas. Existem regulamentos alfandegários rigorosos, e os medicamentos podem não chegar ao destino correto. É sempre preferível doar financeiramente a organizações de confiança ou contactá-las para saber quais são os medicamentos específicos necessários.
Como posso garantir que a minha doação financeira é utilizada de forma eficaz para o apoio médico?
Opte por doar a organizações humanitárias reconhecidas e com experiência comprovada em contextos de crise, como a Médicos do Mundo, a Cruz Vermelha, o ACNUR ou a UNICEF. Estas organizações têm infraestruturas para gerir fundos de forma transparente e direcioná-los para as necessidades mais prementes.
Como podem as empresas portuguesas contribuir com apoio médico ou material para a Ucrânia?
As empresas portuguesas podem doar diretamente bens essenciais — medicamentos com prazo de validade adequado, material hospitalar, equipamento médico — ou oferecer apoio logístico e contribuições financeiras destinadas à aquisição de bens médicos, sempre em parceria com organizações humanitárias já estabelecidas e com experiência no terreno.
Para saber mais sobre como apoiar a Ucrânia, consulte o nosso guia completo sobre como ajudar a Ucrânia ou descubra o kit de primeiros socorros e doação de material médico para a Ucrânia.
