Rui Mendes é o diretor de recursos humanos de uma empresa industrial de componentes metálicos na região de Braga. Com 14 anos de experiência, Rui tem liderado o processo de integração de refugiados ucranianos na força de trabalho da empresa desde 2022. Nesta entrevista, ele partilha os desafios enfrentados, as lições aprendidas e os impactos positivos que esta iniciativa teve na organização.
Jornalista: Como surgiu a decisão de empregar refugiados ucranianos na sua empresa?
Rui Mendes: A decisão surgiu no início de 2022, quando a guerra na Ucrânia começou a deslocar um grande número de pessoas. Na prática, percebemos que havia uma oportunidade de ajudar aqueles que procuravam refúgio e, ao mesmo tempo, suprir algumas lacunas de mão-de-obra na nossa produção. Não vou dizer que foi fácil no início, mas sabíamos que era o caminho certo a seguir. A ideia também foi influenciada por outras empresas na região, que começaram a partilhar histórias de sucesso, mostrando que a integração de refugiados podia ser vantajosa tanto para os colaboradores como para as empresas. Este processo foi facilitado por programas de apoio locais e nacionais, que forneceram as bases necessárias para uma transição suave. Trabalho para refugiados ucranianos em Portugal.
O apoio de organizações como a AIMA foi crucial para navegar as complexidades legais e administrativas associadas à contratação de refugiados. Além disso, o governo português implementou medidas de apoio que incluíram incentivos financeiros e programas de formação, facilitando o processo de integração. Por exemplo, o IEFP — medidas de apoio ao emprego disponibilizou subsídios para formação, permitindo que os novos colaboradores se adaptassem mais rapidamente ao ambiente de trabalho português. Isto não apenas promoveu um ambiente laboral inclusivo, mas também melhorou a eficiência operacional global da empresa. Conseguimos, assim, não só preencher vagas críticas, mas também trazer uma nova dinâmica à nossa força de trabalho.
Jornalista: Quais foram os principais desafios durante o processo de recrutamento?
Rui Mendes: Um dos maiores desafios foi a língua. A maioria dos refugiados não falava português, o que dificultava a comunicação inicial. Para ultrapassar esta barreira, organizámos aulas de português e criámos materiais de formação em ucraniano. Outro desafio foi a adaptação cultural, mas a nossa equipa mostrou-se sempre disponível para ajudar, o que facilitou bastante o processo. Além disso, tivemos de lidar com questões burocráticas relacionadas com a legalização dos documentos de trabalho, o que exigiu uma colaboração estreita com a AIMA. A formação em língua portuguesa revelou-se crucial, pois não só melhorou a comunicação, mas também aumentou a confiança dos refugiados, permitindo-lhes interagir mais eficazmente com os colegas. Guia completo para empresas que querem empregar refugiados ucranianos.
Para além das barreiras linguísticas, enfrentámos desafios logísticos, como a necessidade de encontrar alojamento adequado para os trabalhadores refugiados e as suas famílias. Este processo foi facilitado através de parcerias com autarquias locais e associações de imigrantes que ajudaram a disponibilizar habitação temporária. Em alguns casos, conseguimos trabalhar com ONGs locais que ofereceram apoio psicológico e assistência legal, essenciais para a tranquilidade e segurança dos refugiados. Esta rede de apoio foi vital para assegurar que os novos colaboradores tinham as condições necessárias para se estabilizar e concentrar no trabalho. Além disso, a colaboração com escolas locais ajudou a integrar as famílias na comunidade, proporcionando uma base sólida para uma integração bem-sucedida.

Jornalista: Que medidas implementaram para integrar estes trabalhadores na equipa?
Rui Mendes: Implementámos um programa de integração que inclui sessões de orientação sobre a cultura da empresa e workshops sobre segurança no trabalho. Além disso, promovemos eventos sociais para fomentar o convívio entre os colaboradores portugueses e ucranianos. Em termos concretos, estas ações ajudaram a criar um ambiente de respeito e colaboração mútua. A nossa abordagem foi moldada pela experiência de outras empresas que seguiram práticas semelhantes, o que nos deu um plano de ação claro desde o início. A integração também foi suportada pelo fornecimento de transporte para os trabalhadores, facilitando o seu acesso ao local de trabalho e reduzindo as barreiras logísticas.
Checklist:
- Aulas de língua portuguesa
- Sessões de orientação cultural
- Workshops de segurança
- Eventos sociais de integração
Estas medidas não só melhoraram o ambiente de trabalho, mas também aumentaram a retenção de colaboradores. O apoio contínuo e a flexibilidade para adaptar as políticas de integração às necessidades dos trabalhadores provaram ser fundamentais. Além disso, organizámos sessões de feedback regulares onde os trabalhadores podem expressar as suas preocupações e sugestões, o que tem sido essencial para ajustar e melhorar o programa de integração de forma contínua. Também implementámos um sistema de mentoria, onde trabalhadores mais experientes ajudam os novos colaboradores a adaptarem-se, promovendo uma cultura de apoio e cooperação dentro da empresa. Estas iniciativas têm mostrado que a integração bem-sucedida vai além das simples formalidades, exigindo um compromisso de todos os níveis da organização.
Jornalista: Como a presença de trabalhadores ucranianos tem beneficiado a empresa?
Rui Mendes: Em termos de produtividade, observámos um aumento de cerca de 15% desde que começámos a empregar refugiados ucranianos. Estes trabalhadores são extremamente dedicados e trazem uma ética de trabalho exemplar. Além disso, a diversidade cultural enriqueceu a nossa equipa, promovendo novas ideias e abordagens para os desafios diários. É importante mencionar que os refugiados trouxeram consigo uma vasta gama de competências e experiências que complementaram as nossas necessidades operacionais. Um exemplo concreto foi a implementação de um novo método de produção sugerido por um colaborador ucraniano, que resultou numa redução de 10% no tempo de fabrico.
A presença destes trabalhadores também aumentou a nossa reputação na comunidade local, destacando-nos como uma empresa socialmente responsável. Este impacto positivo na imagem da empresa gerou um aumento nas candidaturas para outras posições, tanto de portugueses como de estrangeiros. A diversidade tem impulsionado a inovação no nosso processo produtivo, sendo uma mais-valia indiscutível. Além disso, o ambiente de trabalho tornou-se mais dinâmico e inclusivo, o que atraiu novos talentos e melhorou o moral e a motivação de toda a equipa. Iniciativas como estas demonstram que a responsabilidade social corporativa pode, efetivamente, estar alinhada com os objetivos empresariais de crescimento e inovação. Também notámos melhorias na resolução de problemas, pois as variadas perspetivas culturais contribuíram para soluções mais criativas e eficazes.
Para que a experiência não fique apenas em impressões gerais, organizámos internamente um pequeno balanço comparativo entre o primeiro ano de integração e a situação atual. Os números confirmam aquilo que sentíamos no terreno: a retenção melhorou de forma muito clara, a produtividade da linha onde os colaboradores ucranianos estão inseridos subiu de forma sustentada, e o investimento em formação linguística revelou-se, na prática, um dos fatores com melhor retorno de todo o programa.
| Indicador | Antes da integração (2022) | Situação atual (2026) |
|---|---|---|
| Taxa de retenção a 12 meses | 68% (média geral da fábrica) | 84% (equipa com colaboradores ucranianos) |
| Produtividade da linha de produção | Referência 100 | 115 (+15%) |
| Colaboradores ucranianos com português funcional | 0% | 92% |
| Candidaturas espontâneas recebidas por ano | ~40 | ~95 |
| Custo médio de formação por colaborador | — | 620 € (parcialmente comparticipado pelo IEFP) |
Estes dados internos não substituem estatísticas nacionais, mas ajudam-nos, na prática, a justificar internamente o investimento contínuo no programa perante a administração e os acionistas da empresa.
Jornalista: Qual foi o papel do governo e das organizações locais neste processo?
Rui Mendes: O governo português, através do IEFP, disponibilizou medidas de apoio que foram cruciais para o sucesso do nosso programa. O apoio financeiro, por exemplo, ajudou-nos a cobrir parte dos custos de formação. A AIMA também foi fundamental ao fornecer informações sobre os direitos e deveres dos trabalhadores refugiados. Sem o apoio destas entidades, o processo teria sido muito mais complicado. Além disso, tivemos reuniões regulares com a Câmara Municipal de Braga, que se mostrou sempre disponível para nos apoiar com informação e contactos úteis.
A reter: O apoio institucional é vital para a integração eficaz de refugiados no mercado de trabalho.
Estas colaborações permitiram-nos aceder a recursos que, de outra forma, teriam sido inacessíveis, e garantiram que o processo de integração fosse tão inclusivo e eficiente quanto possível. O apoio das instituições locais também foi crucial para garantir que os trabalhadores refugiados tinham acesso a serviços essenciais, como cuidados de saúde e educação para os seus filhos. Além disso, a colaboração com escolas locais permitiu que as crianças dos refugiados recebessem educação adequada e apoio linguístico, facilitando a sua integração na comunidade portuguesa. Este suporte abrangente foi essencial não apenas para o bem-estar dos trabalhadores, mas também para a estabilidade e segurança das suas famílias, promovendo uma integração mais harmoniosa e eficaz.
Jornalista: Alguma experiência concreta que tenha marcado este processo?
Rui Mendes: Lembro-me de uma situação em que um dos nossos colaboradores ucranianos, que inicialmente tinha dificuldades em comunicar, conseguiu liderar uma pequena equipa graças ao apoio contínuo que recebeu. Este é apenas um exemplo entre muitos que mostram como a determinação e o apoio adequado podem fazer a diferença. Outro caso foi o de uma colaboradora que, após participar num workshop de liderança, assumiu um papel importante na nossa linha de montagem, aumentando a eficiência em 20%. Estes exemplos não só ilustram a capacidade de adaptação e superação dos refugiados, mas também destacam a importância de um sistema de apoio robusto.
Outro exemplo marcante foi a introdução de um sistema de melhoria contínua nos processos de produção, sugerido por um dos trabalhadores ucranianos, que permitiu à empresa economizar cerca de 5% nos custos operacionais anuais. Estas contribuições têm sido um testemunho do valor que a diversidade e a inclusão podem trazer para uma organização. Além disso, histórias pessoais de superação e sucesso têm inspirado outros membros da equipa e promovido um ambiente de trabalho mais coeso e solidário. Estes casos concretos reiteram que, quando são dados os recursos e o apoio certos, os refugiados podem não só integrar-se eficazmente, mas também contribuir significativamente para o crescimento e inovação da empresa.
Jornalista: Como é que a comunidade local tem reagido a esta iniciativa?
Rui Mendes: A reação tem sido amplamente positiva. A comunidade de Braga mostrou-se acolhedora e muitas vezes ofereceu ajuda aos novos residentes. Esta atitude facilitou a adaptação dos refugiados e reforçou a nossa convicção de que estamos a fazer a coisa certa. Além disso, organizámos eventos comunitários onde os refugiados puderam partilhar a sua cultura, o que ajudou a criar uma ponte entre a comunidade local e os novos residentes. Estas iniciativas não só promoveram a integração, mas também enriqueceram a vida cultural da região. Como ajudar a Ucrânia a partir de Portugal.
A convivência regular entre os membros da comunidade e os refugiados tem promovido um melhor entendimento e respeito mútuo, criando um ambiente acolhedor e inclusivo para todos. Iniciativas como estas são essenciais para desmistificar preconceitos e construir uma sociedade mais coesa. A partilha de tradições e experiências tem sido uma via de mão dupla, onde tanto os refugiados quanto os residentes locais aprenderam e beneficiaram mutuamente. Estes esforços de integração cultural têm sido fundamentais para fortalecer os laços comunitários e promover um ambiente de convivência harmoniosa. Ao criar espaços de interação e diálogo, conseguimos não apenas facilitar a integração dos refugiados, mas também enriquecer a comunidade local com novas perspetivas e experiências culturais.

Jornalista: Que conselhos daria a outras empresas que consideram empregar refugiados?
Rui Mendes: Primeiro, é essencial envolver toda a equipa no processo de integração. Segundo, investir em formação é crucial para superar barreiras linguísticas e culturais. Por último, é importante aproveitar os apoios disponíveis, como os oferecidos pelo IEFP, para facilitar a transição. É também vantajoso criar parcerias com organizações locais que possam oferecer apoio adicional, como serviços de aconselhamento e orientação psicológica.
Erro frequente: Não subestimar a importância da comunicação intercultural na integração de refugiados.
Ao implementar estas práticas, as empresas não só ajudam a sociedade, mas também criam um ambiente de trabalho mais diversificado e inovador. A experiência mostra que, com o planeamento adequado e o apoio certo, a integração de refugiados pode ser altamente benéfica para todas as partes envolvidas. Contacte a nossa equipa editorial para mais informações sobre como iniciar este processo na sua organização. Além disso, a criação de um ambiente que valorize a diversidade e promova a inclusão pode ser uma vantagem competitiva significativa, atraindo talentos diversos e melhorando a criatividade e inovação internas.
Jornalista: 5 perguntas rápidas — verdadeiro ou falso:
- Todos os refugiados falam inglês fluentemente.
- Falso. Muitos têm conhecimentos básicos, mas o domínio varia.
- O apoio governamental é insuficiente.
- Falso. Embora possam existir desafios, há apoios significativos disponíveis.
- As qualificações dos refugiados são sempre reconhecidas automaticamente.
- Falso. O reconhecimento pode ser um processo demorado.
- A integração cultural é um processo rápido.
- Falso. Requer tempo e esforço contínuo.
- Empregar refugiados é uma responsabilidade social e não beneficia a empresa financeiramente.
- Falso. Os benefícios são tanto sociais como económicos.
Jornalista: Quais são os seus conselhos finais para empresas e gestores de recursos humanos?
Rui Mendes:
- Seja proativo: Comece por criar um plano de integração claro e envolva a sua equipa desde o início.
- Invista em formação: A formação é a chave para superar barreiras linguísticas e culturais.
- Aproveite os apoios: Utilize os recursos disponíveis, como os programas do IEFP e da AIMA, para facilitar o processo.
Rui Mendes prova que com determinação e apoio adequado, integrar refugiados ucranianos no mercado de trabalho português é uma tarefa possível e benéfica para todas as partes envolvidas. Para mais informações sobre os apoios disponíveis, consulte IEFP — medidas de apoio ao emprego e AIMA — Agência para a Integração, Migrações e Asilo. Para mais detalhes ou para partilhar a sua história, contacte a nossa equipa editorial.
