Diogo Matos, jornalista com vasta experiência em reportagens sobre ajuda humanitária, conversa com João Ferreira, voluntário de logística no Porto. João tem três anos de experiência a organizar convoys humanitários e a gerir a triagem e transporte de donativos materiais para a Ucrânia. Nesta entrevista, ele partilha insights sobre os desafios logísticos, parcerias e histórias marcantes vividas no terreno.
Apresentação do voluntário e da associação
Diogo Matos: João, pode apresentar-se e falar-nos um pouco sobre a associação com que trabalha?
João Ferreira: Claro, Diogo. Sou o João Ferreira, e estou a colaborar com uma associação humanitária aqui no Porto há três anos. A nossa missão é ajudar a Ucrânia, particularmente desde o início do conflito em 2022. A associação tem-se focado em enviar ajuda material, o que inclui desde alimentos e medicamentos a roupa e produtos de higiene. Trabalhamos em estreita colaboração com a diáspora ucraniana em Portugal para garantir que os donativos chegam a quem realmente precisa. Além disso, temos parcerias com outras organizações na Europa que ajudam a otimizar a logística e distribuição dos materiais. A nossa rede é composta por cerca de 50 voluntários ativos, e conseguimos enviar aproximadamente 200 toneladas de donativos por ano para várias regiões da Ucrânia. Recentemente, expandimos a nossa rede de contatos na Ucrânia para incluir escolas e hospitais, assegurando que apoio educacional e médico também é disponibilizado. Além disso, temos vindo a colaborar com a AIMA para facilitar a integração de refugiados, garantindo que os esforços não só se concentram na Ucrânia mas também no acolhimento em Portugal.
Como começou o envolvimento no voluntariado
Diogo Matos: Como começou o seu envolvimento no voluntariado?
João Ferreira: O meu envolvimento começou de forma bastante pessoal. Tenho amigos na diáspora ucraniana em Portugal e, quando o conflito escalou, senti que precisava de fazer algo. Juntei-me a esta associação porque queria ajudar de forma mais estruturada. No início, era apenas um voluntário a ajudar na triagem dos donativos, mas rapidamente me envolvi na logística dos convoys, um elemento crucial para garantir que a ajuda chega ao destino de forma eficiente. Desde então, participei em mais de 30 missões de transporte, cada uma com os seus próprios desafios. Por exemplo, uma vez tivemos de reencaminhar um convoy devido a um bloqueio de estradas causado por condições meteorológicas adversas, o que exigiu uma rápida adaptação e coordenação com as autoridades locais. Outro exemplo marcante ocorreu quando um dos nossos camiões foi alvejado, felizmente sem causar feridos, mas obrigando-nos a rever o percurso e reforçar a segurança. Esta experiência fez-me perceber a importância de estar preparado para o inesperado e ter sempre um plano alternativo.
A logística de um convoy humanitário
Diogo Matos: Qual é a logística envolvida num convoy humanitário?
João Ferreira: A logística de um convoy humanitário é bastante complexa. Por exemplo, temos de coordenar a recolha de donativos em diferentes pontos, garantir que tudo está devidamente embalado e etiquetado, e depois organizar o transporte até à Ucrânia. Trabalhamos com uma rede de transportadoras que nos ajudam a garantir que os bens chegam em segurança. É crucial manter uma comunicação constante com os nossos parceiros na Ucrânia para ajustar os planos conforme necessário. Recentemente, começámos a utilizar tecnologia de rastreamento GPS para monitorizar os veículos em tempo real, o que nos ajuda a reagir rapidamente a quaisquer desvios do plano inicial. Além disso, estamos a colaborar com a reconstrução da Ucrânia, fornecendo materiais de construção para ajudar as comunidades a reerguer-se. Numa das nossas operações, conseguimos entregar mais de 500 unidades de tijolos e cimento para a reconstrução de uma escola que havia sido destruída. Este tipo de apoio é crucial, pois permite que as comunidades recuperem alguma normalidade no seu dia-a-dia.
Triagem e organização dos donativos materiais
Diogo Matos: Como é feita a triagem e organização dos donativos materiais?
João Ferreira: A triagem é um processo meticuloso. Primeiro, recebemos os donativos e fazemos uma separação inicial por categorias, como alimentos, roupas, medicamentos, etc. Depois, cada item é verificado quanto à validade e condição. Temos vários voluntários que nos ajudam a embalar e etiquetar cada caixa. Na prática, é uma tarefa que requer muita atenção ao detalhe para assegurar que nada importante é deixado para trás. Por exemplo, numa das nossas operações, descobrimos que uma caixa de medicamentos estava fora de validade, o que nos obrigou a rever todo o lote para garantir a segurança dos recipientes. Também mantemos um inventário digital para rastrear cada item e garantir que os donativos são distribuídos de acordo com as necessidades específicas das comunidades. Esta abordagem foi crucial quando, num dos nossos envios, conseguimos identificar rapidamente uma necessidade urgente de fraldas e produtos de higiene pessoal para uma maternidade. Além disso, a triagem é uma oportunidade para os voluntários aprenderem mais sobre a situação no terreno e as necessidades específicas das comunidades ucranianas.

Parcerias com organizações na Ucrânia
Diogo Matos: Que tipo de parcerias têm na Ucrânia para garantir a distribuição dos donativos?
João Ferreira: Temos parcerias com várias organizações locais na Ucrânia. Estas parcerias são vitais, pois garantem que os donativos são distribuídos corretamente. Trabalhamos com organizações que já têm uma presença estabelecida e que conhecem bem as necessidades locais. Por exemplo, colaboramos com uma ONG que distribui kits de sobrevivência em regiões mais remotas, onde o acesso é mais difícil. Além disso, estas parcerias ajudam-nos a obter feedback sobre o impacto dos donativos e a ajustar as nossas operações conforme necessário para maximizar a eficiência. Recentemente, implementámos um sistema de relatórios que nos permite monitorizar o uso dos donativos e ajustar as nossas operações de acordo com as necessidades emergentes. Estas parcerias têm sido fundamentais, especialmente no contexto de apoio psicológico aos refugiados, uma área que começámos a explorar devido à crescente necessidade identificada no terreno. A colaboração local é essencial para garantir que os recursos são usados de forma eficaz e que chegam às mãos de quem mais precisa.
Desafios logísticos e imprevistos
Diogo Matos: Quais são os maiores desafios logísticos que enfrenta, e como gere os imprevistos?
João Ferreira: Os desafios logísticos são inúmeros. Desde questões alfandegárias a problemas técnicos com os veículos, cada convoy tem o potencial de enfrentar obstáculos inesperados. Na prática, mantemos sempre um plano B e até um plano C. Por exemplo, se um veículo avaria, temos contactos de transportadoras locais que podem intervir rapidamente. A comunicação constante com todos os envolvidos é essencial para gerir estes imprevistos. Tivemos uma situação em que um dos nossos camiões ficou retido na fronteira devido a documentação incompleta, mas graças à rápida intervenção da nossa equipa jurídica, conseguimos resolver o problema em menos de 24 horas. Em outro caso, uma tempestade de neve inesperada atrasou o nosso convoy em 48 horas, mas graças à colaboração com as autoridades locais, conseguimos garantir abrigo e segurança para a equipa e os donativos. Outro desafio frequente é a necessidade de adaptar rapidamente as rotas devido a conflitos em curso, o que exige uma coordenação estreita com parceiros locais.
Histórias marcantes no terreno
Diogo Matos: Pode partilhar algumas histórias marcantes que viveu no terreno?
João Ferreira: Uma das histórias mais marcantes ocorreu durante um dos nossos primeiros convoys. Estávamos a caminho de uma cidade na Ucrânia quando fomos informados de que a área tinha acabado de ser alvo de um ataque. Tivemos de redirecionar rapidamente o nosso trajeto, mas conseguimos entregar os donativos a uma comunidade muito necessitada. Ver a gratidão nos olhos das pessoas é algo que nunca esquecerei. Este tipo de situações mostra a resiliência das comunidades e a importância do nosso trabalho. Noutra ocasião, uma escola local tinha ficado sem recursos básicos após o início do conflito, e conseguimos entregar materiais escolares que permitiram retomar as aulas. Estas experiências reforçam o nosso compromisso e mostram como o apoio internacional é crucial para a reconstrução da Ucrânia. Outro exemplo foi quando uma família deslocada conseguiu reconstruir a sua casa com os materiais que fornecemos, um momento verdadeiramente emocionante e inspirador. Recentemente, ajudámos uma pequena comunidade a construir uma nova estação de tratamento de água, garantindo acesso a água potável para centenas de pessoas.

5 perguntas rápidas — verdadeiro ou falso
Diogo Matos: 5 perguntas rápidas — verdadeiro ou falso:
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A logística humanitária é mais simples do que parece.
- João Ferreira: Falso. É complexa e requer planeamento detalhado.
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Todos os donativos são sempre utilizados.
- João Ferreira: Falso. Infelizmente, algumas vezes recebemos itens que não podem ser usados.
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Trabalhar em logística é imprevisível.
- João Ferreira: Verdadeiro. Cada dia pode trazer novos desafios.
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A colaboração com outras organizações é essencial.
- João Ferreira: Verdadeiro. Sem parcerias, seria impossível operar eficazmente.
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O voluntariado é uma experiência enriquecedora.
- João Ferreira: Verdadeiro. É gratificante e transforma a nossa perspetiva de vida.
Conselhos para quem quer ser voluntário
Diogo Matos: Quais são os seus conselhos finais para quem gostaria de se tornar voluntário?
João Ferreira:
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Comece localmente. Envolva-se com associações na sua área e entenda como pode contribuir. Pode encontrar várias oportunidades através da AIMA ou contactar com refugiados ucranianos em Portugal.
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Informe-se bem. Entenda as necessidades específicas da missão e como pode ajudar de forma eficaz. Participar em workshops ou sessões de formação pode ser extremamente útil para preparar o voluntário para os desafios que poderá enfrentar.
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Seja flexível. Esteja preparado para lidar com situações imprevistas e adaptar-se rapidamente. A resiliência e a capacidade de adaptação são qualidades essenciais para um voluntário eficaz.
Como ajudar sem se deslocar
Para aqueles que não podem deslocar-se mas ainda desejam apoiar, há várias maneiras de fazê-lo. Doações monetárias a organizações de confiança são sempre bem-vindas. Além disso, pode ajudar a aumentar a conscientização sobre a situação na Ucrânia através das redes sociais. Aprenda mais sobre a comunidade ucraniana, como a comunidade franco-ucraniana e aprender mais sobre a diáspora ucraniana em França, para entender melhor os desafios e fortalecer redes de apoio.
