Portugal acolheu mais de 60 000 refugiados ucranianos desde fevereiro de 2022, tornando-se um dos países europeus com maior proporção de refugiados ucranianos em relação à população total. Encontrar alojamento digno e estável permanece um dos principais desafios para estas famílias. Este guia apresenta todas as soluções disponíveis em 2026.

A situação do alojamento dos ucranianos em Portugal em 2026

Portugal distinguiu-se no panorama europeu pela rapidez e generosidade da resposta inicial. As primeiras semanas de março de 2022 viram milhares de famílias portuguesas abrindo as portas aos seus vizinhos ucranianos. Quatro anos depois, a situação estabilizou-se, mas as necessidades continuam a ser significativas.

Em 2026, os ucranianos beneficiam da proteção temporária ao abrigo da Diretiva europeia 2001/55/CE, transposta para a lei portuguesa. Este estatuto garante-lhes direito de residência temporária, acesso ao mercado de trabalho, ao sistema nacional de saúde (SNS) e à educação — e facilita o acesso ao alojamento através dos apoios sociais disponíveis.

As principais soluções de alojamento em Portugal

1. Centros de acolhimento do IHRU e autarquias

O Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (IHRU) coordenou a disponibilização de habitações públicas para refugiados ucranianos. As autarquias — Câmara Municipal de Lisboa, Porto, Setúbal, entre outras — disponibilizaram apartamentos do parque habitacional municipal.

Como aceder : através do ACM (Alto Comissariado para as Migrações) no momento da chegada a Portugal, ou através do consulado ucraniano em Lisboa. As candidaturas são instruídas pelos Serviços Locais de Apoio ao Refugiado (SLAR).

2. A Rede Nacional de Apoio aos Refugiados (RNAR)

A RNAR é uma rede de entidades que integra associações, autarquias e instituições religiosas que disponibilizam alojamento e serviços de integração. Em 2026, conta com mais de 300 entidades parceiras em todo o país.

Para encontrar o ponto de apoio mais próximo, contactar o ACM em acm.gov.pt ou ligar para o 808 257 257 (linha de informação para migrantes, gratuita).

3. A Plataforma de Apoio aos Refugiados (PAR)

A PAR é a principal organização que facilita o acolhimento em famílias voluntárias em Portugal. O processo funciona assim :

  1. A família voluntária regista-se em refugiados.pt
  2. A PAR avalia o alojamento disponível e o perfil da família
  3. A ligação é feita com um refugiado com necessidades compatíveis
  4. Um técnico social acompanha o processo durante os primeiros meses
  5. A PAR apoia a transição para alojamento autónomo

Este modelo tem funcionado muito bem para refugiados que chegam sozinhos ou em pequenos grupos, sem filhos em idade escolar que compliquem a integração.

4. O mercado privado de arrendamento com apoio do ISS

Para os ucranianos que encontraram emprego ou que têm recursos próprios, o arrendamento privado é uma opção viável com apoios do Instituto da Segurança Social (ISS) :

  • Subsídio de renda temporário para as famílias com proteção temporária sem rendimentos suficientes
  • Comparticipação do FAMI para programas de arrendamento apoiado geridos por associações parceiras
  • Garantia de renda do IHRU em determinados programas municipais

Realidade do mercado : os preços de arrendamento em Lisboa e Porto estão entre os mais elevados da Europa em termos de rácio renda/salário. As cidades do interior — Coimbra, Braga, Évora — oferecem condições mais acessíveis e uma qualidade de vida muito razoável.

5. Alojamento nas comunidades da diáspora ucraniana

Portugal conta com uma comunidade ucraniana histórica — anterior a 2022 — com mais de 40 anos de presença. Esta comunidade, estimada em 200 000 pessoas, inclui tanto os “antigos migrantes” como os refugiados mais recentes.

As principais associações da diáspora que apoiam no alojamento são :

  • Associação dos Ucranianos em Portugal (AUP) — presente em Lisboa e Faro
  • União dos Cidadãos Ucranianos de Portugal (UCUP) — Lisboa
  • Comunidade Ucraniana de Portugal — Porto
  • Igrejas Ortodoxas Ucranianas em Lisboa, Porto e Faro — pontos de contacto informais para alojamento de emergência

Encontrar alojamento em Portugal é apenas o primeiro passo. Para entender melhor o contexto e os direitos dos refugiados ucranianos, consulte também os recursos enciclopédicos disponíveis em ukraine-zoom.com sobre os direitos dos refugiados.

Cidades com melhor oferta para refugiados ucranianos

Lisboa : maior oferta de serviços mas preços elevados. Centro comunitário ucraniano ativo. Boa ligação com o resto da Europa.

Porto : cidade média com boa qualidade de vida e custo de arrendamento ligeiramente inferior a Lisboa. Comunidade ucraniana ativa com várias associações.

Braga e Guimarães : cidades universitárias com boa oferta de arrendamento e programas municipais de integração de refugiados. Custo de vida razoável.

Setúbal e Almada : periferia de Lisboa com acessos facilitados e menor pressão imobiliária. Várias autarquias têm programas específicos de alojamento para ucranianos.

Algarve : forte presença ucraniana pré-2022 ligada ao turismo e construção. Sazonalidade económica pode ser um desafio para o alojamento estável.

Évora e Beja : interior alentejano com baixo custo de vida e programas de fixação de refugiados financiados pelo FAMI. Opção interessante para famílias que procuram estabilidade.

Famílias ucranianas refugiadas a encontrar alojamento em Portugal

Desafios específicos do alojamento em Portugal

O mercado de arrendamento português enfrenta uma crise estrutural que afeta tanto a população local como os refugiados. Compreender estes desafios ajuda a navegar melhor as opções disponíveis.

A pressão sobre o mercado privado : com a subida das rendas em Lisboa e Porto nos últimos anos, muitas famílias ucranianas encontraram dificuldade em arrendar pelo preço de mercado. As rendas médias em Lisboa superam os 1 200 €/mês para um apartamento T1, muito acima do que um trabalhador a receber o salário mínimo consegue pagar.

A barreira linguística : o português é uma língua de aprendizagem relativamente acessível para falantes eslavos motivados, mas nos primeiros meses a comunicação com proprietários pode ser difícil. Associações como a PAR disponibilizam mediadores linguísticos que acompanham as visitas e a assinatura de contratos.

A falta de historial de crédito : proprietários portugueses pedem frequentemente referências de senhorios anteriores e extratos bancários. Para novos chegados, estas exigências são impossíveis de satisfazer. Existem no entanto programas de garantia de renda geridos pelo IHRU e pelo ISS que substituem estas referências.

A concentração em Lisboa e Porto : a tendência natural é concentrar-se nas grandes cidades onde existe mais apoio comunitário. Mas esta concentração aumenta a pressão sobre os recursos disponíveis. O programa “Fixar Interior” do governo português tem incentivos financeiros para famílias de refugiados que se instalem em municípios do interior.

As questões de sobreocupação : em alguns casos, famílias alargadas ou grupos de amigos partilham espaços pequenos para reduzir custos. Se bem que seja uma solução temporária compreensível, pode criar tensões e não permite uma integração adequada. As associações de apoio tentam, sempre que possível, encontrar alternativas mais dignas.

O papel das autarquias : boas práticas locais

Algumas câmaras municipais distinguiram-se pelo seu empenho no acolhimento de refugiados ucranianos :

Lisboa : programa “Lisboa Acolhe” com apartamentos municipais e acompanhamento social por técnicos trilingues (português, inglês, ucraniano).

Porto : parceria com a Cruz Vermelha Portuguesa para gestão de apartamentos de transição. Escola de português para adultos gratuita integrada no programa.

Cascais : colaboração com o Consulado Geral da Ucrânia em Lisboa para casos prioritários (mulheres sozinhas com filhos, idosos, pessoas com necessidades especiais).

Viseu : projeto-piloto de habitação rural recuperada para famílias ucranianas que optaram por viver no interior. Produção agrícola de subsistência como complemento ao rendimento. Resultados positivos em termos de integração e qualidade de vida.

Braga : parceria com empresas locais que oferecem emprego e apoio ao alojamento de forma integrada — o empregador garante um alojamento inicial enquanto o trabalhador acumula poupanças para arrendar de forma autónoma.

Documentação necessária para o alojamento

Para aceder à maioria dos dispositivos de alojamento, é necessário :

  • Documento de viagem ucraniano (passaporte ou equivalente)
  • Declaração de proteção temporária emitida pelo SEF/AIMA
  • NIF (Número de Identificação Fiscal) — obtenível nas Finanças com o título de proteção temporária
  • NISS (Número de Identificação de Segurança Social) — emitido pelo ISS

O ACM tem equipas de tradutores para ucraniano que ajudam a completar estas formalidades. Os consulados ucranianos em Lisboa e Porto também prestam apoio administrativo.

Centro de acolhimento de emergência para refugiados ucranianos em Portugal

Perspectivas para 2026-2027 : da proteção temporária à autonomia habitacional

A proteção temporária foi renovada pela União Europeia até março de 2026, com possibilidade de extensão. Para as famílias ucranianas que já construíram uma vida em Portugal — emprego, escola para os filhos, redes sociais — a questão do futuro estatuto legal e habitacional é central.

Três cenários possíveis para os refugiados ucranianos em Portugal:

1. Continuação da proteção temporária : o cenário mais provável a curto prazo, enquanto a situação na Ucrânia não permitir o regresso em segurança. Mantém os mesmos direitos de acesso à habitação e aos apoios sociais.

2. Transição para autorização de residência : refugiados com emprego estável e mais de 2 anos de residência em Portugal podem solicitar autorização de residência por razões humanitárias ao AIMA. Este estatuto garante direitos mais permanentes e facilita o acesso a crédito habitação e arrendamento de longa duração.

3. Naturalização : ao fim de 5 anos de residência legal, é possível solicitar a nacionalidade portuguesa. Os ucranianos com língua eslava têm em geral facilidade em atingir o nível mínimo de língua portuguesa exigido (A2).

Para as famílias que ponderam a transição : contactar a AIMA (aima.gov.pt) para informação sobre o estatuto atual e os passos para regularizar a situação a longo prazo. As associações AUP e UCUP têm técnicos jurídicos que apoiam neste processo gratuitamente.

A estabilidade habitacional a longo prazo depende desta regularização do estatuto legal : um contrato de arrendamento de 5 anos, acesso a crédito habitação, ou inscrição em listas de habitação social, são muito mais acessíveis com autorização de residência do que apenas com proteção temporária.

Como ajudar : o papel das famílias e empresas portuguesas

Se é português(a) e quer ajudar uma família ucraniana a encontrar alojamento :

  1. Disponibilize um quarto ou apartamento : inscreva-se na PAR (refugiados.pt)
  2. Apoie financeiramente : as associações precisam de fundos para pagar rendas no mercado privado enquanto as famílias encontram emprego
  3. Seja fiador : algumas entidades aceitam servir de garante para contratos de arrendamento de refugiados
  4. Sensibilize o seu senhorio : muitos proprietários estão dispostos a arrendar mas precisam de segurança — informe-os das garantias disponíveis

Para mais informações sobre como ajudar os refugiados ucranianos em Portugal, consulte o nosso guia de ajuda à Ucrânia e a nossa lista de associações ativas em Portugal. Se é empresário, considere também o programa de emprego e alojamento integrado — algumas câmaras municipais oferecem incentivos fiscais para empresas que acolhem refugiados ucranianos como trabalhadores.

Conclusão : um acolhimento que se consolida

Em 2026, Portugal confirma o seu papel de país de acolhimento generoso e estruturado. Os dispositivos existem — públicos e privados — e a comunidade ucraniana já estabelecida serve de rede de suporte essencial para os recém-chegados. O desafio é agora o da integração duradoura : emprego, língua, escola para as crianças, e alojamento autónomo a longo prazo.

O percurso típico de um refugiado ucraniano em Portugal passa por três fases : alojamento de emergência (primeiros meses, através da RNAR ou PAR), alojamento de transição (6 a 18 meses, com apoio do ISS ou associações), e autonomia habitacional (arrendamento próprio com rendimentos do trabalho). A maioria das famílias que chegaram em 2022 já atingiu ou está a caminho desta terceira fase — o que é um sinal muito positivo de integração bem-sucedida.

A comunidade ucraniana em Portugal passou de “refugiados” a “residentes”. Esta mudança de perspetiva é fundamental para o tipo de apoios de que precisam : menos alojamento de emergência, mais acesso a habitação permanente, crédito e segurança jurídica.

Cada casa aberta é um ato de solidariedade que muda uma vida. Se este guia o ajudou, partilhe-o com pessoas que possam precisar ou que possam ajudar.


Para saber mais sobre as associações que apoiam os ucranianos em Portugal, consulte o nosso guia das associações de ajuda à Ucrânia em Portugal. Pode também ler o testemunho de um refugiado ucraniano para compreender melhor as realidades vividas.