Desde o início do conflito na Ucrânia em fevereiro de 2022, Portugal acolheu cerca de 180 000 ucranianos, tornando-se um dos países da União Europeia com maior concentração de refugiados ucranianos per capita. Entre eles, as mulheres constituem uma larga maioria : mães com filhos, mulheres sozinhas, estudantes, profissionais deslocadas. Esta sobrerrepresentação feminina resulta diretamente da lei marcial ucraniana que proíbe os homens entre 18 e 60 anos de abandonar o território nacional. Em Portugal, estas mulheres enfrentam uma realidade complexa — direitos reais mas obstáculos persistentes, resiliência notável mas vulnerabilidades específicas que este guia aborda em detalhe.
Uma dupla vulnerabilidade : refugiada e mulher
As mulheres ucranianas refugiadas acumulam dois fatores de vulnerabilidade que se ampliam mutuamente : o estatuto de deslocadas num país estrangeiro, e os riscos específicos ligados ao género. Esta realidade está documentada pelas associações de terreno, pela Europol e pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) desde 2022.
Os fatores de vulnerabilidade mais frequentes incluem o isolamento linguístico (o português e o ucraniano pertencem a famílias linguísticas muito diferentes), a responsabilidade parental a solo (a maioria das mães deixou os pais dos filhos em território ucraniano), a urgência económica, a rutura com a rede de apoio habitual, e o trauma da fuga — muitas vezes abrupta e violenta.
Ao mesmo tempo, as mulheres ucranianas são reconhecidas pelo seu elevado nível de escolaridade, determinação e capacidade de adaptação. O retrato duplo está presente : mulheres fragilizadas mas não destruídas, que navegam entre as urgências do presente e a reconstrução do futuro.
Os números : quem são as mulheres ucranianas em Portugal ?
Os dados disponíveis em 2026 permitem traçar um perfil bastante preciso :
- 60 a 65 % dos refugiados ucranianos em Portugal são mulheres, ou seja, entre 100 000 e 120 000 pessoas
- Faixa etária predominante : 25 a 45 anos, com maior concentração entre os 30 e 40 anos
- Nível de escolaridade : 68 % possuem um diploma do ensino superior (fonte OCDE 2023), proporção significativamente mais elevada do que a média das populações refugiadas
- Situação familiar : 58 % chegaram com pelo menos um filho menor a cargo
- Situação profissional antes da partida : 72 % trabalhavam na Ucrânia
- Perfis profissionais : professoras, engenheiras, médicas, contabilistas, juristas, comerciais — perfis qualificados
Estes números revelam um paradoxo : mulheres altamente qualificadas, motivadas para se reconstruir, mergulhadas numa precariedade extrema nos primeiros meses em Portugal. O desafio não é a sua capacidade de integração, mas a rapidez com que os dispositivos de acolhimento se adaptam aos seus perfis reais.
Os direitos específicos em Portugal
A proteção temporária concedida pela União Europeia e transposta para o direito português confere às refugiadas ucranianas um conjunto de direitos concretos, frequentemente desconhecidos pelas próprias beneficiárias.
O direito ao trabalho imediato
Ao contrário de outros requerentes de asilo, as ucranianas com proteção temporária podem trabalhar desde o primeiro dia em Portugal. Este direito é fundamental para as mulheres que procuram rapidamente autonomia financeira. Na prática : inscrição no IEFP (Instituto do Emprego e Formação Profissional), avaliação de competências, acesso a formações.
O acesso aos cuidados de saúde — SNS
O Serviço Nacional de Saúde (SNS) é acessível às refugiadas ucranianas mediante inscrição no centro de saúde da área de residência. Os cuidados cobertos incluem : medicina geral e familiar, acompanhamento ginecológico e obstétrico, saúde mental (psicólogo, psiquiatra), interrupção voluntária da gravidez (IVG), e contraceção gratuita para menores de 22 anos.
A barreira linguística permanece um obstáculo real, mas associações como Médicos do Mundo oferecem consultas com intérpretes ucranianos em Lisboa e no Porto.
O Subsídio de Proteção Temporária (SPT)
O SPT é atribuído pela Segurança Social às beneficiárias de proteção temporária sem rendimentos de trabalho. O montante é calculado em função da composição do agregado familiar e da duração de permanência em Portugal.
A escolarização dos filhos
A escolarização é imediata e obrigatória desde a chegada a Portugal, independentemente do estatuto administrativo. As crianças ucranianas são integradas nas turmas regulares com apoio de Português como Língua Não Materna (PLNM). Esta integração escolar é frequentemente a primeira porta de entrada na vida social portuguesa para toda a família.

Os riscos de exploração : prevenção e denúncia
Desde 2022, a Europol e a Interpol emitiram alertas sobre os riscos de exploração das refugiadas ucranianas na Europa. Em Portugal, várias situações foram documentadas pelas autoridades e associações.
O tráfico de seres humanos
Os grupos organizados exploram vários vetores para contactar mulheres refugiadas ucranianas : falsas ofertas de alojamento que ocultam situações de exploração sexual ou trabalho forçado, ofertas de emprego fictícias (empregada doméstica, cuidadora de idosos, hotelaria), e grupos no Telegram e WhatsApp que contactam mulheres isoladas.
Os sinais de alerta incluem : ofertas que combinam alojamento gratuito e emprego imediato com salário elevado, empregadores que pretendem guardar os documentos de identidade, situações de alojamento estritamente ligadas ao emprego sem alternativa apresentada, e isolamento progressivo dos restantes refugiados ou voluntários.
Para denunciar : linha 144 (violência doméstica e tráfico de pessoas, gratuita, 24h/24), SOS Imigrante — 808 257 257, ou diretamente à Polícia de Segurança Pública (PSP) ou à Guarda Nacional Republicana (GNR).
As fraudes de alojamento
Proprietários sem escrúpulos aproveitaram a vulnerabilidade das refugiadas para fraudes diversas : rendas muito acima do mercado, despesas fictícias, cauções não devolvidas, despejo súbito. A barreira linguística e o desconhecimento do arrendamento em Portugal dificultam a contestação destas situações.
Conselho prático : recorrer sempre a uma associação reconhecida (Plataforma de Apoio aos Refugiados, ACNUR, ACM) para intermediar o contacto com proprietários. Nunca pagar qualquer montante sem ter um contrato de arrendamento assinado e compreendido.
A exploração laboral
Algumas entidades empregadoras contrataram ucranianas abaixo do salário mínimo nacional, sem contrato escrito, em condições degradadas. O desconhecimento da legislação laboral portuguesa é o principal vetor de vulnerabilidade.
Recursos disponíveis : contactar a ACT (Autoridade para as Condições do Trabalho), as permanências jurídicas dos sindicatos, ou os serviços de apoio jurídico do ACM.
Redes de entreajuda e associações dedicadas
Uma rede associativa densa constituiu-se em Portugal desde 2022 para responder às necessidades específicas das mulheres ucranianas refugiadas.
Associações generalistas com serviços dedicados
- Plataforma de Apoio aos Refugiados (PAR) : rede nacional de mais de 200 organizações, acompanhamento global
- ACNUR Portugal : proteção jurídica, orientação para serviços
- ACM (Alto Comissariado para as Migrações) : balcões locais em todo o território, cursos de português, inserção profissional
- Cáritas Portuguesa : forte presença junto das mães com filhos, apoio material e social
- Cruz Vermelha Portuguesa : acolhimento, apoio psicossocial, programas de integração
Associações específicas para mulheres
- UMAR (União de Mulheres Alternativa e Resposta) : defesa dos direitos das mulheres, apoio a vítimas de violência
- APAV (Associação Portuguesa de Apoio à Vítima) : apoio a vítimas de crimes, incluindo tráfico de pessoas
- Associação Portuguesa de Planeamento Familiar (APPF) : saúde reprodutiva, contracetivos, IVG
A comunidade ucraniana em Portugal como rede de apoio
A comunidade ucraniana em Portugal antes de 2022 contava com uma presença significativa, em especial no setor agrícola, da construção e dos serviços. Estas pessoas, integradas há anos, tornaram-se pontes essenciais para as novas chegadas : tradução, orientação nas burocracias, redes profissionais.
Plataformas como franceukraine.fr documentam recursos de integração para as mulheres ucranianas na Europa, úteis também para as que estão em Portugal e que consultam recursos em francês.
Apoio psicológico : os recursos disponíveis
O trauma do deslocamento forçado, combinado com a preocupação constante pelos entes queridos que ficaram na Ucrânia, gera uma carga mental considerável. Os profissionais de saúde observam desde 2022 um aumento do stress pós-traumático (PTSD), perturbações de ansiedade e estados depressivos na população refugiada ucraniana, especialmente entre as mulheres.
Recursos disponíveis em Portugal :
- Psicólogos ucranianofontes através das associações da diáspora, frequentemente em consulta presencial em Lisboa e Porto
- SNS24 (808 24 24 24) : linha de apoio de saúde com possibilidade de encaminhamento para psicólogos
- Linha de Apoio Psicológico da Cruz Vermelha : disponível para refugiados com intérpretes
- Centros de Saúde : consultas de psicologia no SNS, mediante referenciação pelo médico de família
Os sinais de alarme que não devem ser ignorados incluem : desligamento social pronunciado, choro incontrolável persistente, insónia grave, flashbacks frequentes. Estes sintomas requerem acompanhamento profissional sem demora.
Uma nota importante : pedir ajuda psicológica não é um sinal de fraqueza — é uma resposta racional a uma situação extraordinária. O trauma de guerra e o deslocamento forçado afetam o funcionamento cognitivo e emocional de qualquer pessoa, independentemente da sua força de caráter. Aceder ao apoio disponível é a decisão mais corajosa e mais eficaz para recuperar capacidade de agir e reconstruir.

Escolaridade e emprego : recomeçar do zero
O reconhecimento de diplomas, o principal obstáculo
Portugal, como os restantes países europeus, não reconhece automaticamente os diplomas ucranianos. Os processos variam consoante a profissão : para médicos, o reconhecimento pode demorar dois a cinco anos ; para enfermeiros, seis meses a dois anos ; para professores, seis meses a um ano ; para engenheiros, o processo é geralmente mais rápido.
As engenheiras, programadoras, contabilistas e gestoras de projeto encontram trabalho mais rapidamente, pois as suas competências são reconhecidas no mercado de trabalho sem necessidade de equivalência formal.
Os programas de emprego dedicados em Portugal
- IEFP : formação profissional, colocação, subsidiação do emprego de trabalhadores estrangeiros
- Portugal Acolhe : programa nacional de integração profissional de imigrantes e refugiados
- Consulting & Services : associações de empresários comprometidos com a contratação de refugiados
- Startups inclusivas : algumas empresas tecnológicas em Lisboa e no Porto criaram programas específicos para integrar competências ucranianas
Perspetivas : regressar à Ucrânia ou ficar em Portugal ?
A questão do regresso é central na experiência de cada mulher ucraniana refugiada. Em 2026, após quatro anos de conflito, as posições diversificaram-se : algumas mulheres querem regressar assim que a situação o permitir — são geralmente mulheres mais velhas, com laços profundos à sua terra natal ; outras estão “entre dois” — mães com filhos integrados em Portugal, que criaram hábitos aqui mas com o coração na Ucrânia ; outras ainda construíram uma vida estável em Portugal e o regresso tornou-se um projeto emocional, não um projeto de vida concreto.
Não existe uma decisão “certa”. O que importa é que cada mulher possa tomar essa escolha livremente, informada dos seus direitos em qualquer dos cenários.
Contribuir para a reconstrução da Ucrânia a partir de Portugal
Viver em Portugal não significa virar as costas à Ucrânia. Pelo contrário, muitas mulheres ucranianas refugiadas encontraram formas concretas de contribuir para o futuro do seu país a partir daqui.
Envio de remessas : os transferes regulares de uma parte dos rendimentos para familiares na Ucrânia representam um contributo económico direto. Plataformas como Wise, Revolut ou Western Union facilitam as transferências internacionais a custo reduzido.
Partilha de competências : algumas mulheres qualificadas em medicina, tecnologia ou gestão participam em programas de formação à distância para profissionais ucranianos que trabalham na reconstrução. Organizações como a Ukraïner ou o programa de voluntariado técnico do governo ucraniano facilitam estas ligações.
Advocacia e sensibilização : as mulheres ucranianas em Portugal tornaram-se embaixadoras involuntárias da realidade ucraniana junto da sociedade portuguesa. A sua voz junto de associações, média e políticos locais tem um peso que nenhuma campanha de comunicação pode substituir.
Preparar o regresso : para quem mantém o projeto de regressar quando a situação o permitir, manter ou desenvolver competências em português pode ser um trunfo na futura reconstrução — Portugal é um parceiro histórico da Ucrânia e os laços criados durante o exílio serão recursos valiosos no pós-guerra.
Para um acompanhamento mais abrangente sobre os refugiados ucranianos em Portugal, consulte o nosso guia sobre refugiados ucranianos em Portugal e o nosso artigo sobre como encontrar alojamento em Portugal.
Leia também o testemunho de um refugiado ucraniano em Portugal para compreender estes percursos de integração na primeira pessoa.