Rita Nogueira, jornalista em Lisboa, entrevista Marta Cunha, uma experiente professora com 16 anos de carreira, especializada no acolhimento de crianças refugiadas e no ensino do português como língua não materna. Marta partilha a sua experiência e estratégias na integração de crianças ucranianas no sistema educativo português.
Apresentação do percurso profissional
Rita Nogueira: Marta, pode falar-nos um pouco sobre o seu percurso profissional e como chegou a esta especialização no acolhimento de crianças refugiadas?
Marta Cunha: Claro, Rita. Comecei a minha carreira há 16 anos como professora do 1º ciclo em Lisboa. Desde cedo, percebi a importância de proporcionar um ambiente acolhedor a todas as crianças, independentemente da sua origem. Esta sensibilidade levou-me a especializar-me no acolhimento de crianças refugiadas. Na prática, o que vejo no terreno é que estas crianças enfrentam desafios únicos, muitos dos quais relacionados com a adaptação cultural e linguística. Há cerca de cinco anos, participei num curso de formação sobre ensino de português como língua não materna, o que me permitiu desenvolver competências específicas para ajudar estas crianças a integrarem-se melhor no sistema educativo português. Este investimento em formação contínua é crucial, especialmente num contexto onde as demandas são dinâmicas e em constante evolução. Trabalhar com a diáspora ucraniana em Portugal foi um passo importante para entender melhor as suas necessidades específicas e adaptar as minhas abordagens pedagógicas em conformidade. Além disso, colaborei com diversas associações de ajuda à Ucrânia em Portugal que me proporcionaram uma visão mais aprofundada sobre a realidade destas famílias. Temos visto um aumento no número de crianças ucranianas desde o agravamento do conflito em 2022, o que sublinha a importância de estarmos preparados para responder às suas necessidades de forma eficaz.
Primeiro contacto com crianças ucranianas
Rita Nogueira: Quando teve o seu primeiro contacto com crianças ucranianas no contexto escolar?
Marta Cunha: O meu primeiro contacto com crianças ucranianas foi em 2014, logo após o início do conflito na Ucrânia. Lembro-me de receber uma turma com várias crianças vindas de lá, devido à situação política e económica instável. Na altura, o que mais me impressionou foi a resiliência destas crianças. Apesar das dificuldades, mostravam uma enorme vontade de aprender e integrar-se. Desde então, o número tem vindo a aumentar, especialmente após 2022, com a intensificação do conflito. Este aumento levou-me a aprimorar ainda mais as minhas estratégias de acolhimento e a trabalhar em estreita colaboração com associações locais. Estes laços criados com as associações são fundamentais, pois permitem-nos oferecer um apoio mais estruturado e eficiente. Além disso, o guia completo como ajudar a Ucrânia tem sido um recurso valioso para muitos que procuram formas de contribuir. A integração destas crianças não é uma tarefa fácil e requer um esforço coordenado de várias partes, incluindo escolas, associações e a própria comunidade. Recordo-me de um caso em particular, uma menina chamada Anya, que chegou à nossa escola sem falar uma palavra de português. Com o apoio de tutores e programas de integração, conseguiu não só aprender a língua, mas também destacar-se nas suas disciplinas favoritas, como a matemática.
Desafios linguísticos na sala de aula
Rita Nogueira: Quais são os principais desafios linguísticos que encontra na sala de aula?
Marta Cunha: Os desafios linguísticos são, sem dúvida, uma das maiores barreiras. As crianças chegam sem dominar o português, o que pode dificultar a sua integração e aprendizagem. Por exemplo, uma das estratégias que utilizo é o ensino através de jogos e música, que facilita a aprendizagem de uma nova língua de forma divertida e natural. Além disso, trabalho muito com o apoio de intérpretes e materiais bilingues. Contudo, é essencial lembrar que cada criança é única e, por isso, as estratégias também têm de ser adaptadas individualmente. Por exemplo, uma criança que chegou recentemente da Ucrânia partilhou que se sentiu mais à vontade ao ouvir músicas portuguesas infantis, o que a ajudou a aprender novas palavras. Trabalhar em conjunto com os colegas e com a diáspora ucraniana em Portugal tem sido fundamental para ultrapassar estes desafios. Além disso, temos implementado um programa de tutoria onde estudantes mais avançados ajudam os novos alunos, o que tem mostrado resultados encorajadores na sua integração. Um estudo recente mostrou que crianças que participam em programas de tutoria aumentam a sua proficiência linguística até 30% mais rápido do que aquelas que não têm este apoio.
Estratégias pedagógicas de acolhimento
Rita Nogueira: Que estratégias pedagógicas de acolhimento utiliza para ajudar estas crianças a sentirem-se integradas?
Marta Cunha: Uma das minhas estratégias é criar um ambiente de sala de aula que seja inclusivo e acolhedor. Isto começa com a sensibilização de toda a turma para a chegada de novos colegas e a importância de os acolherem de braços abertos. Para além disso, utilizo materiais visuais e recursos que respeitam a diversidade cultural. Por exemplo, organizamos atividades onde as crianças podem partilhar a sua cultura e tradições, o que enriquece a experiência de todos. Também é importante estabelecer rotinas claras, pois isso ajuda as crianças a sentirem-se seguras e integradas no novo ambiente. Outra estratégia que tenho implementado é a utilização de tecnologia, como tablets, que permite às crianças acederem a recursos educativos em ambas as línguas, facilitando assim a transição. Este tipo de abordagem tem-se mostrado eficaz para promover um ambiente de aprendizagem interativo e acolhedor. A cooperação com associações de ajuda à Ucrânia em Portugal também nos tem permitido criar programas extracurriculares que reforçam o sentimento de pertença. Um exemplo concreto é o clube de teatro que estabelecemos, onde as crianças podem expressar-se livremente e trabalhar em projetos que refletem as suas experiências e culturas.

Papel dos pais e da comunidade
Rita Nogueira: E qual é o papel dos pais e da comunidade no processo de integração?
Marta Cunha: O papel dos pais e da comunidade é vital. É importante envolver os pais no processo educativo e criar uma rede de apoio. Realizamos reuniões regulares com os pais para discutir o progresso das crianças e abordar quaisquer preocupações. Estas reuniões são muitas vezes realizadas com apoio de intérpretes para garantir uma comunicação eficaz. Além disso, incentivamos a comunidade local a participar em eventos escolares e a colaborar em projetos conjuntos. Por exemplo, temos parcerias com associações de ajuda à Ucrânia em Portugal, que oferecem apoio adicional às famílias. Este envolvimento cria um sentido de pertença e facilita a integração das crianças e das suas famílias. As autarquias locais também desempenham um papel importante, oferecendo programas de integração e apoio cultural que beneficiam tanto as crianças como os seus pais. Este tipo de colaboração tem-se mostrado essencial na criação de um ambiente comunitário acolhedor e inclusivo, permitindo que as famílias se sintam seguras e bem-vindas. Em 2023, um estudo realizado em Lisboa mostrou que escolas com forte envolvimento comunitário tiveram uma taxa de integração 40% superior.
Trauma e apoio socioemocional
Rita Nogueira: Como aborda a questão do trauma e do apoio socioemocional no contexto escolar?
Marta Cunha: O apoio socioemocional é uma prioridade. Muitas destas crianças chegam com experiências traumáticas devido ao conflito no seu país de origem, um tema que aprofundamos no nosso apoio psicológico aos refugiados. Por isso, trabalhamos em estreita colaboração com psicólogos escolares para oferecer apoio especializado. Implementamos programas de educação emocional que ajudam as crianças a expressarem e gerirem as suas emoções de forma saudável. Além disso, proporcionamos um espaço seguro onde podem partilhar as suas experiências e sentimentos. Na prática, o que vejo no terreno é que este apoio é crucial para o bem-estar e sucesso académico das crianças. Um caso específico foi o de uma menina que inicialmente não conseguia participar nas aulas devido à ansiedade, mas através de sessões de apoio emocional e atividades artísticas, conseguimos reduzir significativamente o seu stress. O envolvimento de profissionais de saúde mental e o apoio contínuo da comunidade são essenciais para ajudar estas crianças a ultrapassar o trauma e a encontrar estabilidade. A colaboração com especialistas externos também nos tem permitido implementar práticas inovadoras de apoio emocional.
Colaboração entre escolas e associações locais
Rita Nogueira: Pode falar-nos sobre a colaboração entre as escolas e as associações locais?
Marta Cunha: A colaboração entre escolas e associações locais é fundamental para oferecer um apoio abrangente às crianças e suas famílias. Trabalhamos com várias associações de ajuda à Ucrânia em Portugal, que nos fornecem recursos adicionais e formação para lidar com as necessidades específicas destas crianças. Por exemplo, organizamos workshops para professores e sessões de sensibilização para os alunos sobre a cultura ucraniana. Esta colaboração tem-se revelado essencial para criar um ambiente escolar inclusivo e de apoio. Além disso, iniciativas como estas ajudam a fomentar uma maior compreensão e respeito pela diversidade cultural dentro da escola. A colaboração não se limita apenas ao apoio educativo, mas também se estende a áreas como saúde e bem-estar, onde trabalhamos em parceria para garantir que as famílias têm acesso a serviços essenciais. Este tipo de abordagem integrada é crucial para garantir que todos os aspetos do bem-estar das crianças são abordados. As escolas estão também a trabalhar para facilitar a reconstrução da Ucrânia através de campanhas de sensibilização e apoio logístico. Em 2023, durante um evento comunitário, conseguimos arrecadar fundos suficientes para enviar mais de 2000 euros em suprimentos escolares para as crianças em zonas de conflito na Ucrânia.

5 perguntas rápidas — verdadeiro ou falso
Rita Nogueira: Vamos agora a 5 perguntas rápidas — verdadeiro ou falso. Primeiro, todas as crianças ucranianas falam inglês quando chegam.
Marta Cunha: Falso. Nem todas falam inglês, embora algumas possam ter algum conhecimento básico. A diversidade linguística é um desafio tanto para os alunos como para nós, mas também uma oportunidade de aprender uns com os outros.
Rita Nogueira: O apoio da comunidade é mais importante do que o apoio escolar.
Marta Cunha: Falso. Ambos são igualmente importantes e devem trabalhar em conjunto. A integração só é possível quando todo o ecossistema ao redor da criança está envolvido e comprometido.
Rita Nogueira: As crianças ucranianas têm, geralmente, dificuldades em adaptar-se às normas escolares portuguesas.
Marta Cunha: Verdadeiro. Pode haver um período de adaptação necessário. Esta adaptação pode ser suavizada com o apoio de tutores e a introdução gradual às regras e expectativas escolares.
Rita Nogueira: As escolas portuguesas estão bem preparadas para receber crianças refugiadas.
Marta Cunha: Verdadeiro em parte. Há um esforço contínuo para melhorar, mas ainda existem desafios. Os recursos são frequentemente limitados, o que pode dificultar o atendimento individualizado.
Rita Nogueira: A aprendizagem da língua portuguesa é o maior desafio para estas crianças.
Marta Cunha: Verdadeiro. É um desafio significativo, mas que pode ser superado com o apoio adequado. Programas intensivos de língua e tutoria personalizada têm mostrado resultados positivos.
Conselhos finais para professores
Rita Nogueira: Quais seriam os seus conselhos finais para os professores que estão a lidar com crianças ucranianas?
Marta Cunha:
- Educação contínua: Participem em formações sobre ensino de português como língua não materna e acolhimento de refugiados. A formação contínua é essencial para estar sempre preparado para novos desafios.
- Empatia e comunicação: Criem um ambiente acolhedor e mantenham uma comunicação aberta com as crianças e as suas famílias. A empatia é a chave para construir relações de confiança.
- Colaboração e rede de apoio: Trabalhem em conjunto com colegas, psicólogos e associações de ajuda à Ucrânia em Portugal para assegurar um apoio abrangente. Uma rede de apoio forte pode fazer a diferença entre a integração e a exclusão.
Esta entrevista com Marta Cunha fornece uma visão detalhada sobre a integração de crianças ucranianas nas escolas portuguesas. Para uma compreensão mais profunda, podem consultar compreender o contexto histórico da Ucrânia e descobrir a Ucrânia de amanhã. A colaboração contínua entre instituições é essencial para a reconstrução da Ucrânia e o apoio às suas comunidades em todo o mundo.
